| Manuel João
Ramos. Portugal. 1960. Antropólogo. Professor.
Ilustrador. Desenhador de BD
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| Introdução (excerto)
do livro “Histórias Etíopes: Diário
de Viagem” de M.J.Ramos. 2000. Assírio&Alvim
Até aquele dia, eu nunca tinha prestado particular atenção ao destino dos meus cadernos de desenhos. Sempre desenhei como meio simples de fixar a memória e as visões de locais e pessoas. Por isso, não é o resultado final do esforço de representação mas o próprio acto que me importa, em viagem. Ao desenhar, obrigo-me a olhar com mais atenção, a perscrutar formas, cores e acontecimentos, e é assim que as fixo na minha memória. Faço-o também porque não gosto de passear câmaras fotográficas à frente dos olhos daqueles que me vêm como um estranho na sua terra, nem de reduzir o espírito das paisagens e edifícios à bidimensionalidade da “amplicópia”. Tenho também duas razões adicionais para desenhar em viagem. Quando viajo sózinho gosto de sentir que tenho tempo e o desenho é uma forma algo auto-referencial de o dispender. Por outro lado, desenhar é uma forma benigna de averiguar comportamentos: autóctones e co-viajantes reagem aos meus desenhos com misturas variáveis de curiosidade, disponibilidade e desconfiança, provocando modos de interacção graças aos quais a minha figura se humaniza um pouco. Esta reacção é para mim tanto mais importante quanto, ao viajar em países não-europeus, sou regularmente oprimido pela sensação de que, para os habitantes locais, eu sou um elemento alienígena agressor, e despersonalizado. Se me encontro num país onde a comunicação verbal é difícil ou impossível, onde o universo de conhecimentos e valores comuns é reduzido, e onde o meu tom de pele, a minha fisionomia e a minha postura me identificam imediatamente como um estranho, reclamar o direito de me humanizar torna-se um impulso quase imperativo. Desenhar não é, por isso, apenas um passatempo e um exercício de disciplina da memória visual: é também um meio de comunicação entre mim e os mundos por onde viajo, que me permite por vezes escapar ao cliché da alteridade – isto é, humanizo-me um pouco, não fundindo-me ou confundindo-me com um mundo social a que sou estranho, mas tornando-me aí o exótico do exótico. Viajar como desenhador não é essencialmente diferente de viajar como antropólogo. De um modo ou de outro, olho, interpreto, questiono, e desperto curiosidade. Se os resultados finais não são em tudo semelhantes, tal não se deve porém apenas aos métodos, estilos e géneros de cada uma das formas de expressão. Com meios diferentes, e públicos diversos, o desenhador e o antropólogo imaginam-se instrumentos de representação do exótico visual ou social. Mas creio que é sobretudo uma consciencialização mais ou menos aguda das limitações do “representável”, e portanto uma maior ou menor modéstia perante os “objectos”, que parece distinguir mais essencialmente as duas estratégias. O desenhador arroga-se menos um imperialismo de “representação” que o fotógrafo, o cineasta, o jornalista, ou o antropólogo. Mais limitado (à urgência de desenhar, à pobreza dos materiais, às fraquezas da técnica), e por isso mais livre, o desenho de viagem não tenta sequer pretender que “descreve” ou “reproduz” uma qualquer realidade vivida e observada. Como o postal ilustrado, é para quem o vê como que uma cruz numa folha de presenças (been there, seen that). Mas é também algo mais: encerra em si, invisível, o testemunho de um olhar, a hipótese de uma memória e o sinal de uma osmose dos sentidos e do Dasein, entre quem desenhou e quem ou o quê foi desenhado. Viajei durante alguns meses, no segundo semestre de 1999, não pela “Etiópia antropológica” do Sul e Sudoeste, mas pela chamada “Etiópia histórica”. Fi-lo, no entanto, inquirindo, observando e descrevendo vivências de populações rurais e urbanas do núcleo abasha (semitizado) do antigo império etíope. Fi-lo também como quem passa o tempo, como quem quis sentir o que é desaparecer do seu mundo habitual e continuar ainda assim vivo, a poder olhar, cheirar, falar e lembrar. Fi-lo, por isso, também como desenhador: como criador do testemunho de uma viagem de ida e e volta a outro mundo. Para isso, ressuscitei um prazer negado durante anos, desde a perda traumática de um caderno de desenhos em Tavira: o de desenhar despreocupada mas obsessivamente quando viajo. Mas, agora, com uma consciência mais aguda do que implica fixar, em caderno, clichés memoriais: enquanto viajo, o desenho não passa de um subproduto irrelevante da minha actividade de desenhador e fixador de visões, mas quando regresso a casa o desenho torna-se um precioso catalisador da memória e do imaginário. Conversa gravada
A imagem gráfica e a imagem escrita e literária são, de certa maneira, complementares.Uma posição algo radical, do Rui Zink por exemplo, é considerar a Banda Desenhada como literatura gráfica, por oposição a uma visão mais tradicional da B.D. como desenho legendado. Por outro lado, é verdade que à medida que os anos passam vou ficando mais burguês e hoje em dia já compro cadernos com papeis melhores do que aqueles que utilizava no princípio, mas a preocupação continua a ser, sobretudo, a de fixar memórias para mim próprio. Fazer desenhos em cadernos e não em folhas soltas de papel introduziu uma nova dimensão, que é a necessidade de chegar ao fim do caderno. Ter um caderno e não uma série de folhas de papel fez com que a minha relação com o desenho se tenha modificado. Os cadernos introduzem um princípio de narratividade que era menos óbvia anteriormente. Agora acabo por ter mais folhas disponíveis em formatos diferentes, já estou menos A4-dependente. Não escolho aturadamente o formato do caderno. É um pouco o que me aparece pela frente, às vezes sobre o comprido, outras vezes, sobre o alto. Não tenho preocupações barrocas ou formalistas em termos estéticos. Em todo o caso, habitualmente são cadernos A5 ou um pouco maiores. É o que o mercado me oferece. Uso o caderno para desenhar, mas também para afastar moscas, para me sentar, para disfarçar uma máquina de filmar. Quanto ao material usado… houve viagens em que usei o papel “couché”, que é um material simultaneamente muito atraente e muito ingrato, em particular a com tinta da china, porque os pretos ficam muito bem em papel couché mas a tendência para esborratar é imensa. É um jogo, o de procurar aproveitar sempre o “esborratado”. Com o tempo, passei a ter o cuidado de ter sempre um mata-borrão. A caneta ou o marcador cobre muito bem a superfície do papel couché. Uso canetas ArtPen ou de tinta da china. Ultimamente, uso muito as canetas-pincel da Pentel, recarregáveis, que não se vendem cá. Não faço diários só em viagem, ou seja, não apenas em viagens de longo curso, mas por exemplo, nas idas ao café, ou para qualquer saída de casa. Dentro de casa não costumo fazer desenho rápido, aí o trabalho é um pouco diferente. Faço ilustração, banda desenhada, desenhos e pinturas mais lentos. A relação do desenho com o meu trabalho em antropologia é, por um lado o de libertação. Quando estou a desenhar deixo de pensar numa série de coisas, e acho que faz bem ao cérebro, o olhar, o desvalorizar o pensamento consciente, não ler. Por outro lado, a relação que torna-se, com o tempo, cada vez mais complicada. O trabalho tira-me tempo para desenhar e tira-me também espaço, isto é, tenho uma mesa bastante grande onde trabalho, e tenho um estirador onde desenho, e os livros e papéis já não cabem na mesa e invadem permanentemente o estirador, e isto tem como efeito que acabo também por reduzir a minha produção gráfica. Iniciei agora uma série de desenhos, e só fiz dois, e estou há dois meses para fazer mais. Neste caso, a relação é negativa, porque uma actividade acaba por colidir com a outra, mas por outro lado o que eu tenho feito cada vez mais é procurar integrar as minhas diferentes actividades. A necessidade de desenhar acaba por ter um importante impacto no meu próprio trabalho em antropologia, no modo como organizo a informação, no modo como concebo um texto, na capacidade de construção, na capacidade diagramática, seja de um desenho, seja de um texto. O sistema intelectual é o mesmo, não vejo o que faço como duas expressões diferenciadas de dois hemisférios cerebrais distintos. A antropologia visual está na moda. Por um lado os antropólogos têm muito pouca capacidade pictórica, mas por outro lado há um grande fascínio pela tecnologia, é uma espécie de “apropriação” de técnicas, que deviam ser atribuídas mais a fotógrafos e a cineastas. O que acontece é que se acaba por gastar muitos recursos financeiros e intelectuais à volta de produtos com pouca qualidade. Podemos fazer antropologia com recursos de fixação gráfica mais baratos, como o desenho. A fotografia não substitue o desenho, e muito menos o etnográfico… O chamado pós-modernismo introduziu uma pretensa subjectividade no olhar do cientista social que se imagina objectivo, mas esta retórica não resolve o que está muitas vezes em causa, que é o problema da auto-legitimação discursiva do antropólogo, que parece requerer o estatuto do olhar objectivo. A confiança cega na fotografia e no cinema documental são cada vez mais instrumentos para reiterar precisamente esta visão objectiva. Por um lado as tecnologias são agressivas e são obstáculos à comunicação, são obstáculos ao diálogo com as pessoas com que o antropólogo se confronta, e que estuda. Por outro lado, tendemos a esquecer que uma fotografia é um “caos informativo”. O desenho por seu lado busca uma “ordem”, mesmo que imaginária. Uma fotografia é tirada “para mais tarde recordar”, mas enquanto ela é tirada, o fotógrafo deixa de estar atento ao que se está a passar em torno de si. O desenho propõe uma estratégia completamente diferente e muito mais orgânica em relação ao ambiente. Por exemplo, uma paisagem desenhada não encontra um correspondente na realidade observada, não há uma paisagem que seja captada exactamente como é criada graficamente, mas o desenho é uma compilação de informação e expressão de uma vontade ordenadora, estatuto a que a fotografia dificilmente poderá aspirar. |