| Paul
Klee. Alemanha. 1879-1940. Pintor IMAGENS |
| “A revelação
da cor” de Paul Klee na Revista “Arte y Parte”.
nº22 de Setembro-Agosto de 1999. Santander
Tradução livre do castelhano
A cidade é fabulosa; está à beira do mar, cheia de ângulos agudos e obtusos e rectos. De quando em quando, uma olhadela desde a muralha que a rodeia. Nas ruas vêem-se mais mulheres que em Tunes. Mulheres sem véu, como na nossa terra. Além disso, podem-se visitar cemitérios. Um está situado num local maravilhoso, frente ao mar. E uns animais pastam nele. Que bom. Trato de pintar. As sebes e os arbustos formam um belo ritmo de manchas. Nos arredores, soberbos jardins. Cactos gigantes formam muros. Um caminho é uma azinhaga bordada de cactos. Pintei muito e vagueei muito. Pela noite no café, com um cantor cego e uma criança tocando pandeiro, um ritmo que me acompanhará sempre! Passamos a noite na casa de uma malvada velha francesa. Louis e Macke organizam nos um combate cozinhadosd. A velha deu-nos fígado e chá de flores silvestres. A cozinha da casa de Jaggi foi melhor! Mas o pequeno terrazo no cimo do “hotel” era bom. Fiz aqui uma aguarela com fortes transposições e total fidelidade à natureza. Pouco tempo depois comprou-ma o dr.Karl Wolfskehl. Sons agudos de oboé e golpes de pandeiro atraíram a nossa atenção sobre um encantador teatro de rua ambulante: um encantador de serpentes e um engolidor de fogo. Também o burro observa a cena. 4ºFeira. 15 de Abril. Agora devíamos ir a Kairouan e evitar dar uma volta demasiado grande no comboio. Portanto atravessamos a rua a pé até à estação de Birbourkba. Desta maneira vimo-nos na situação de animar a paisagem com o nosso aspecto europeu, claro que com a maior falta de adaptação. Pois o que havíamos podido ver desde o comboio nos tinha parecido tão intemporal, que fazia pena caminhar por aqui trazendo a muito temporal moda do princípio do século XX. Maravilhosa viagem através da paisagem cada vez mais desértica. Transbordámos novamente em Kalaa-Srira, donde comemos no fundo da estação a cargo de um hoteleiro extremamente nervoso. Um negro é à vez cozinheiro e camareiro; não é muito limpo, mas sabe do seu negócio. 5ªFeira. 16 de Abril. Pintei muito tempo fora da cidade, numa luz ligeiramente difusa, suave e clara. Não havia névoa. Logo desenhei do interior……… Pela noite vagueei pelas ruas. Um café decorado com pinturas. Formosas aguarelas. Comprámos algumas coisas e estamos contentes Chegamos a um café no passeio. Estava um anoitecer de cor ténue em vez de bem definido. Virtuosos de jogos de mesa. Uma hora feliz. Louis descobre manjares de cores esquisitas e pede-me que os conserve no papel, porque sei fazê-lo muito bem. Deixo agora o trabalho. Sinto-me profunda
e suavemente compenetrado com o ambiente, sinto-o e me sinto
seguro, sem esforço. A cor tem-me dominado. Não
necessito procurá-lo fora. Tem-me para sempre, sei-o
bem. E este é o sentido da hora feliz: eu e a cor somos
um. Sou pintor. |